Com base na prévia do Censo 2022, o Tribunal de Contas da União (TCU)
chegou a publicar no final do mês passado os coeficientes que embasariam os
repasses em 2023.
Questionamentos já chegaram à Justiça Federal e, ontem (4), 63
municípios pernambucanos conseguiram uma liminar que impede a redução da
receita.
O FPM é composto por parte da arrecadação da União com o Imposto de
Renda (IR) e com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Para a sua
distribuição, cabe ao IBGE encaminhar os dados populacionais ao TCU, que por
sua vez fixa o coeficiente de cada município aplicando a metodologia definida
em lei, que também leva em conta a renda per capita.
O Brasil costuma realizar o Censo Demográfico de dez em dez anos. É a
única pesquisa domiciliar que vai a todos os 5.570 municípios do país. O
objetivo é oferecer um retrato da população e das condições domiciliares no
país.
As informações obtidas subsidiam a elaboração de políticas públicas e
decisões relacionadas com a alocação de recursos financeiros. O Censo 2022
deveria ter sido realizado em 2020, mas foi adiado duas vezes: primeiro, causa
da pandemia de covid-19 e depois por adversidades orçamentárias.
Com dificuldades para concluir todas as visitas, o IBGE já anunciou
diversas vezes mudanças na previsão de conclusão. Na semana passada, divulgou
a prévia dos dados
populacionais.
Trata-se de uma estimativa com base na coleta realizada até 25 de
dezembro de 2022, correspondente a 83% da população brasileira. Esses foram os
dados abarcados pelo TCU na Decisão Normativa 201/2022, que estabeleceu
coeficientes para os repasses do FPM a serem efetuados em 2023.
Segundo o IBGE, um dos entraves para a conclusão do Censo 2022 envolve
a recusa de muitos moradores em
atender os recenseadores e responder o questionário, o que é obrigatório por
lei. Quem se negar a prestar informações pode receber uma multa de até dez
vezes o salário mínimo.
Apesar disso, até o momento, houve rejeição de mais de 1,9 milhão de
brasileiros. A média nacional de recusa é de 2,82% e o índice mais alto, de
5,42%, foi registrado em São Paulo.
Diante da situação, a Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe)
moveu uma ação na Justiça Federal em favor dos 63 municípios do estado que
teriam queda de receita.
Juntos, eles deixariam de receber R$ 374,3 milhões. Na ação, a Amupe
aponta violação da Lei Complementar 165/2019, que proíbe a redução dos
coeficientes até que seja finalizado um novo censo demográfico. De acordo com a
entidade, há notícias de "deficiências crassas" na prévia, o que
acarretaria prejuízos irreparáveis nos repasses que serão efetuados a partir da
próxima terça-feira (10).
O juiz Frederico Botelho de Barros Viana concordou com a argumentação e
determinou que os índices utilizados no ano passado fossem mantidos, proibindo
a atualização com base na prévia do Censo 2022.
Ele citou precedentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo
Tribunal Federal (STF), envolvendo casos ocorridos no passado onde também foi
suspensa a redução de repasses relacionados ao FPM.
"Os dados obtidos pelo IBGE no Censo realizado até dezembro de 2022
podem ser alterados em razão da conclusão da coleta junto à população dos
municípios envolvidos, bem como em razão do ajuste de dados supostamente
incorretos, do que denota a ausência de dados seguros para definição dos
coeficientes do FPM, ao menos enquanto ainda não concluída a análise
total", escreveu Viana.
Ele explicou que, conforme a legislação, o IBGE deve enviar os dados ao
TCU até 31 de agosto de cada ano. Dessa forma, o uso das informações que
constam na prévia configuraria violação do prazo legal, já que foram enviadas
apenas na semana passada.
O TCU ficou assim impedido de reduzir coeficientes com base nos novos
dados repassados pelo IBGE, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. A
decisão, no entanto, vale apenas para os 63 municípios de Pernambuco. Em outros
estados, também ocorrem mobilizações.
Segundo levantamento da Associação Mineira de Municípios (AMM), 85
municípios de Minas Gerais deixariam de receber ao todo R$ 375 milhões em
repasses no ano de 2023. Em seu site, a entidade informa que fará uma
contestação administrativa diretamente ao TCU.
Nos cálculos da Associação Amazonense dos Municípios (AAM), 22 cidades
do estado seriam impactadas. A entidade, que anunciou a decisão de recorrer à
Justiça, afirma que a operação censitária ainda não chegou a alguns lugares de
difícil acesso, como cabeceiras de rios e comunidades ribeirinhas, impactando
na aferição populacional.
De acordo com a Confederação Nacional de Municípios (CNM), mais de 700
cidades em todo o país podem ser afetadas com a redução dos repasses.


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